CRÍTICA DE MORADOR/AMIGO

Esta página é reservada a moradores e amigos que queiram escrever críticas, crônicas ou resenhas sobre os filmes que estão sendo, ou serão, exibidos no Cine Santa.



TEMPOS DE PAZ

direção: Daniel Filho

Mauricio Santoro

Tempos de Paz

“Tempos de Paz” trata de direitos humanos, ditadura, democracia e do poder – e necessidade – do teatro como um símbolo de humanidade diante da barbárie. Daniel Filho dirige o filme a partir da premiada peça de Bosco Brasil.

A trama é ambientada em abril de 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta os presos políticos. A guerra na Europa está nos momentos finais, mas o serviço de imigração ainda aguarda as novas diretrizes para os tempos de paz. Sigismundo (Tony Ramos) está numa situação difícil. Ex-membro da polícia política do Estado Novo, ele teme que alguns dos anistiados resolvam acertar velhas contas, e se ressente com o posto secundário que exerce na Alfândega, depois de “ter feito tudo que eles mandaram”. Enquanto pensa em voltar mais cedo para casa, precisa vistoriar um navio recém-chegado, trazendo refugiados que querem se estabelecer no Brasil. Um deles é o polonês Clausewitz (Dan Stulbach), que afirma ser agricultor, mas cujos modos sofisticados despertam a desconfiança das autoridades.

Pressionado por Sigismundo, Clausewitz abre o jogo: na realidade, é ator, mas desistiu do teatro, porque não acredita que a arte seja capaz de dizer algo ao mundo depois dos horrores que testemunhou na guerra. Aprendeu português encantado com a doçura da língua (“Parece um latim falado por quem não tem dentes”). Ele não tem pertences ou dinheiro com os quais possa subornar a imigração. Irritado, Sigismundo lhe propõe uma aposta: se conseguir fazer chorar o embrutecido torturador, poderá ficar no Brasil. “Isso está no regulamento?”, pergunta o atônito candidato a imigrante. Seu algoz lhe responde com o lema de todos os torturadores e esbirros de ditaduras, do Estado Novo à Alemanha Nazista: “O regulamento sou eu”.

O jogo que se segue entre os dois é um esforço doloroso de Clausewitz para recuperar suas lembranças e comover Sigismundo, numa comovente declaração de amor ao teatro “Tempos de Paz” é um filme de dois excelentes atores. Stulbach tem um papel dificílimo, tendo que representar com forte sotaque polonês e interpretar um ator inseguro com o idioma português. Mas é Tony Ramos quem rouba a cena. Parte da crítica não gosta dele, por sua enorme desenvoltura em produções populares na TV e no cinema. Mas Tony Ramos é um artista excepcional, como pode comprovar quem o assista neste filme.

“Tempos de Paz” aborda a acolhida que o país deu a tantos refugiados da guerra, como o fictício Clausewitz, e que renovaram a cultura brasileira. O filme presta uma bela homenagem a todos eles.

 

CORAÇÃO VAGABUNDO
direção: Fernando Grostein Andrade


JORGE SALOMÃO

Belo documentário de FERNANDO  GROSTEIN  ANDRADE com CAETANO VELOSO
da excursão internacional do cd / show FOREIGN SOUND !!!!
Filmado em várias cidades do mundo, o diretor caminha com CAETANO por
NEW YORK, TÓQUIO, KIOTO e outras cidades pelas ruas, parques, jardins onde CAETANO fala  bastante e com clareza das suas  percepções, das suas vivencias, das suas angustias entremeados de belas partes do show.
CAETANO, realmente, é um craque e no filme  mostra todo seu talento
em diferentes situações !!!!!
Com depoimentos de ALMODÓVAR, DAVID BYRNE e MICHELANGELO ANTONIONI desfrutamos de bons momentos de um dos nossos maiores cantores / compositores.
Realmente, um belo programa !!!!!
Corra prá curtir  !!!!!!

por JORGE SALOMÃO  (RIO/2009)

.............................


A PARTIDA
direção: Yojiro Takita


Mauricio Santoro

“A Partida”, de Yojiro Takita é a produção japonesa que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, derrotando rivais de peso como o israelense “Valsa com Bashir” e o francês “Entre os Muros da Escola”. Narrando uma história simples com delicadeza, o drama japonês conquistou o público carioca na divulgação boca a boca.

Daigo (interpretado pelo jovem e excelente Masairo Motoki) é um violoncelista que perde o emprego em Tóquio, quando a orquestra em que tocava é dissolvida. Em dúvida quanto ao próprio talento e em crise pessoal, resolve retornar à pequena cidade onde cresceu, na qual pode viver na casa herdada da mãe. As lembranças de infância são agridoces: a beleza do local e o início da paixão pela música, mas também as parcas e dolorosas memórias do pai que o abandonou ainda criança, e nunca mais deu notícias.

Em busca de trabalho, Daigo responde a um estranho anúncio de jornal e é empregado como assistente numa pequena agência funerária que prepara os corpos para serem colocados em caixões. Anteriormente, os ritos eram feitos pelas famílias dos mortos, mas as tradições se perderam com o tempo e agora os parentes dependem de profissionais capazes de executar as delicadas práticas, que envolvem maquiagem, a escolha da vestimenta adequada e o trato com as pessoas que eram próximas aos falecidos.

A princípio o novo ofício causa repugnância a Daigo – ele tivera pouco contato com a morte e nunca refletira sobre o que ela significa para a vida. Seu mentor nessa jornada será Shoei (atuação contida e talentosa de Tsutomu Yamasaki), o dono da agência funerária, cuja trajetória individual e comentários filosóficos sobre o vínculo entre comida e cadáveres o tornam um personagem antológico. Mas a mudança pessoal de Daigo é complicada pela rejeição que sua nova profissão provoca na esposa e nos amigos, que passam a evitá-lo. O período de solidão do protagonista rende algumas das cenas mais belas do filme, como aquelas em que ele toca Brahms no campo, ou observa os salmões nadarem contra a corrente do rio, no que parece ser um confronto sem sentido com a vida e a morte.

“A Partida” mistura humor e drama nas doses certas, e nunca é amargo ou depressivo. Há apenas uma tristeza muito doce, como aquela cantada por Vinicius de Moraes, que parece guardar sempre a esperança de um dia não ser mais triste. As visitas profissionais de Daigo o levam a ser testemunha de conflitos familiares, de pessoas que se foram antes de fazer as pazes com aqueles que lhes eram queridos, ou de feridas que permaneceram abertas por tempo demais. O cuidadoso roteiro trata a todos os personagens com respeito e afeto, fazendo com que os espectadores nos sintamos também parte de suas histórias, em especial na luta de Daigo para entender o significado da morte e buscar a reconciliação em sua difícil relação com o pai.

por Mauricio Santoro


A PARTIDA
direção: Yojiro Takita


Tizuko Shiraiwa

Este é um filme essencialmente budista!
Este filme me devolve uma dimensão entranhada na cultura japonesa
e portanto no nosso dia a dia, e que vem do budismo:  a morte e a vida são uma só são um 
"Moto continuo" (Edu Lobo e Chico Buarque)*

"...Homem também pode amar
E abraçar e afagar seu ofício porque
Vai habitar o edifí...cio que faz pra você
E no aconchego da pele na pele
Da carne na carne, entender
Que homem foi feito direito
Do jeito que é feito o prazer...

...E quando um homem já está de partida
Da curva da vida ele vê que o seu caminho
Não foi um caminho sozinho porque..."

por Tizuko Shiraiwa


A FESTA DA MENINA MORTA
direção: Matheus Nachtergaele


Izabela Bocayuva

                                                                    
“A torneira ainda pinga?”

por Izabela Bocayuva

O filme A Festa da Menina Morta de Matheus Nachtergaele e Hilton Lacerda, direção de Nachtergaele, ao contrário do que imediatamente pode parecer, não é um filme regional.
Primeira cena: Uma urgência muito urgente! Um homem sai correndo de dentro de casa e de repente assistimos ao motivo de tamanha avidez e pressa: satisfazer a mais simples necessidade, esvaziar a bexiga. Nessa primeira cena encontra-se concentrado o que, ao longo do filme, será continuamente reiterado: a vitalidade que há na sensibilidade. E é nessa vitalidade exatamente que se coloca para nós a “festa da sacralidade”.
            Trata-se de um questionamento realmente urgente, não só na Amazônia que assistimos em pleno caos (dança de breque ao som de bossa nova, “irmãs astronautas” animando festa de santo regada a muita cachaça e cerveja, fora a ausência de uma beleza armada arbitrariamente), um caos que certamente remete ao turbilhão de experiências de cada homem individualmente, mas também em qualquer aglomeração.  Mas a urgência do questionamento de A Festa da Menina Morta absolutamente nada tem a ver com qualquer arrumação do caos em que todo o mundo ocidental se encontra. O filme não pretende meramente “denunciar”, por exemplo, o comportamento profano de um suposto santo num lugarejo brasileiro desconhecido das autoridades. Nem, de um modo mais geral, denuncia a profanação do sagrado quando nos faz pensar que quase não há diferença entre a situação do Santinho sendo, com todo prazer, enrabado pelo próprio pai e a pederastia na igreja católica. Mas, muito embora, veja que o ponto não é a denúncia do profano, não posso deixar de perceber uma radical colocação acerca do sagrado.
Outra cena: O padre pagé ou pagé padre dançando a esmo e proferindo palavras ao vento, de repente se prosterna diante de uma água (suja? Certamente uma água já sem qualquer serventia, mas que também certamente esteve em uso) que é lançada para fora da casa do Santinho.  Definitivamente, a sacralidade não está no ritual instituído, seja onde for ou como for, mas na vida que em sua cotidianidade mais elementar não cessa de ser sentida, e diga-se de passagem... de ser doída em cada gesto.
Uma outra cena muito importante: a câmera encontra-se dentro de um bar no qual se bebe, se prostitui e se joga sinuca. A procissão vai passando diante das portas do bar. Uma garota, certamente já prostituta, é arrebatada pela santidade do cortejo e sai para acompanhá-lo. Enquanto isso, gratuitamente, um dorso másculo de índio ou negro recebe sobre si uma água intensa, como se de cachoeira. A gratuidade dessa cena nada tem de meramente gratuito. Muito pelo contrário. Ela marca, por contraste, a simples e só sensibilidade. Somos levados à primeira cena do filme descrita no início. A sacralidade está aí, na verdade, nesse dorso sentindo a água bater, mas, ao mesmo tempo, também no gesto da garota que sai do bar para acompanhar a procissão. Na verdade, há sacralidade onde há sensação...vida realmente sendo vivida, no cotidiano mais ordinário que seja.
É preciso dizer também que todos os atores estão muito bem e que a fotografia é primorosa! Há movimentos de câmera incrivelmente silenciosos e cenas realmente muito belas que eu chamaria de “desnatureza viva”. Elas apanham muito bem o que, a meu ver, é o tema geral do filme: insetos dando vida a momentos atuais que normalmente se ocultam a todos nós. O cotidiano ordinário não é apenas humano, mas de tudo o mais: dos insetos, de uma galinha preta, de um porco que um dia tem seu dia de morrer e até mesmo de um copo desfeito em cacos de vidro, vidro que corta e faz sangrar...
Por tudo isso, devo ainda dizer que é absolutamente necessário assistir esse filme importante.
Para terminar, volto a perguntar junto com a mãe “fantasma” do Santinho:
“A torneira ainda pinga?”
– Pinga...sem solução
E quanto à vida, ela ainda vive?
– Vive...sem esperança
Em A Festa da Menina Morta essa ausência de esperança não é exatamente a mesma do Match Point de Woody Allen ou do O Corte de Costa Gavras, ou do Onde os fracos não têm vez dos Irmãos Cohen, e arriscaria dizer, que não é a mesma ausência de esperança porque os roteiristas e o diretor são brasileiros e em seu sangue corre, com certeza, não somente sangue europeu, mas também negro e de índio sul-americano.

por Izabela Bocayuva


BUDAPESTE

direção: Walter Carvalho


Eleni Rosa

Não sou cineasta, e os meandros e entrelinhas de uma película só cabem em minhas visões ‘achistas’, sentimentais e nada teóricas ou técnicas. Mas, achei o início do filme é muito lento. Talvez o diretor tenha buscado nos apresentar inovações, com enquadramentos que se misturavam a pensamentos ou atitudes gráficas diferenciadas. (viajei?) De repente quando quase perdemos o interesse pela fita, chega uma novidade, uma interpretação legal, um enquadramento diferente, uma imagem criativa, então voltamos enamorar o filme, coisa estranha...
A referência ou chancela máxima está em carregar o nome de Chico Buarque, de nascer de um livro de Chico que, de acordo com opiniões de pessoas ligadas a área literária o livro Budapeste é um divisor de águas, que dá início a um processo de amadurecimento do escritor Chico – nas letras de música o compositor já está além do popular e pertíssimo do erudito. Neste caso, há expectativas, pode-se dizer certo peso ao transportá-lo para a tela.
O ator Leonardo Medeiros é sempre magnífico, sua atuação é impar, sempre é um toque shakespeareano. Recordo do grande diferencial que foi sua atuação no filme ‘Não por Acaso’. Atores de peso são sempre fundamentais quando algo pode dar errado. 
A triz húngara é fantástica em cada plano, cena, fala...ela possui uma leveza, não sei explicar. Parece que tudo flui. Já a nossa brasileiríssima Giovanna Antonelli...deixa a desejar. Sua atuação como ancora de um telejornal beira ao caricatural de tão superficial, fora de tom...sem palavras.

Questões filosóficas, sociológicas e etc.

O filme aborda o quanto é difícil manter-se no anonimato diante de uma genialidade. As interpretações podem ser múltiplas diante de questões como o sucesso, a fama, a importância de estar entre os ‘top 10’ no mundo e a dicotomia em ser ninguém, ou ser normal. Um paradoxo. A autoria é muito bem discutida nas aflições do personagem central.
Outra questão; quantos escritores impostores nós lemos, ingerimos, degustamos ruminamos e engolimos sem saber. Às vezes uma assinatura é mais mercadológica, possui maior marketing do que um conteúdo muito bom de um simples anônimo. Qual seria a razão, o motivo que impediria uma troca? Justa troca, com o objetivo de vender um sucesso? E até que ponto nos deparamos com a ética neste meio?
Uma professora de literatura levantou uma boa questão: ‘de repente a tradução das palavras de um autor para o idioma de outro país seja tão boa, ou melhor, que a verdadeira escrita no idioma original’. Pensando no filme, eu entendo o que ela quis dizer. Como a tradução pode alterar o pensamento de um autor e de uma cultura. (não existe tradução ao ‘pé da letra’).
Apesar de não ter uma base enciclopédica ‘heliodórica’. Afirmar que o filme é bom, não posso, porém, também não posso dizer que é ruim. Diria que é importante ser visto e vislumbrar a fotografia de Budapeste.

por Eleni Rosa

 

"SIMONAL - Ninguém Sabe o Duro que Dei "
direção: Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal


Xazinho

Nem vem que não tem

Quando vi o documentário “Simonal: ninguém sabe o duro que dei”, lembrei imediatamente da bela revista dos baianos “Olho da História”. Para quem ainda não a conhece, é uma revista que publica artigos relacionados a cinema e história, de autores brasileiros e estrangeiros, com versões impressa e eletrônica. É que o filme promove um reencontro com a história do Brasil, nos anos 60 e 70, uma história triste, por todos os ângulos que se a olhe.
“Nem vem que não tem” talvez fosse um título mais apropriado para o filme, porque, embora ainda não tenha sido inventado o documentário isento, seus diretores fazem questão de mesclar depoimentos de amigos e inimigos do cantor, o que, no nível do dito, deveria frustrar aqueles que foram ao cinema em busca da verdade. O título que arbitrariamente sugiro serviria também para retratar: 1) o comportamento do artista, que, após chegar ao topo, não tolerava ser contrariado nem conhecia limites; 2) a ditadura militar vigente, que dispensa apresentação; e 3) a oposição cansada de apanhar.
Há uma cena do filme que me chamou muito a atenção, aquela em que seus diretores pretendem mostrar que Simonal lutava contra o racismo à sua maneira. Essa cena começa com uma pessoa branca, cercada de pessoas brancas, anunciando à chegada ao palco de um negro – que não se sabe de onde veio nem exatamente o que é –, que funciona como uma deixa para que o cantor passe a mensagem de que negro também é gente. Essa cena me chamou especialmente a atenção porque o filme como um todo acaba reproduzindo-a e a gente sai do cinema sem saber de onde veio nem como chegou ao estrelato Wilson Simonal de Castro, porque o documentário se nega a revelar o duro que ele deu. Para mim,  cena é também central no filme, porque, quando resolve mostrar suas habilidades como músico e cantor, as habilidades que o tornariam gente, o personagem vivido por Simonal o faz como um bobo da corte e, fazendo todos rirem, acaba simbolicamente apedrejado, mesmo estando de joelhos, como a pedir perdão.
Aí eu pensei que a cena lança uma luz tardia sobre a trajetória pessoal do cantor e do mundo em que viveu: o sistema lhe ofereceu o papel de bobo da corte e ele, talvez por ingenuidade, achou que era o de rei. Mas isso é tudo? Foi punido o crioulo que não soube reconhecer o seu lugar? Acho que não. E é isso que o torna um personagem tão fascinante. Ele sabia exatamente qual era o lugar reservado para ele, mas nunca se resignou a ocupá-lo. E vendeu, ou foi tachado de vender, a alma ao demônio, qualquer que fosse a cor de sua alma, tenha o diabo a cara da ditadura ou do mercado. O pecado capital de Simonal foi múltiplo: a soberba, alimentada pela vaidade, pela intemperança e pela gula, que evoluiu para ira, quando descobriu (ou desconfiou), que lhe roubavam um prato, que talvez ele mesmo já tivesse comido.
“Nem vem que não tem”, disse ele para seu contador e o demitiu. “Nem vem que não tem”, devolveu-lhe o contador e o acionou. “Nem vem que não tem”, voltou a dizer ao contador, recorrendo a métodos e pessoas do regime para fazer o ex-funcionário desistir da ação e assumir que o roubara. “Nem vem que não tem”, disse o delegado quando soube do sumiço do contador e da tortura que este sofrera numa dependência do Dops, a pedido do cantor. Mas Simonal foi de garfo em dia de sopa e recorreu ao consagrado “Você sabe com quem está falando?”, logo ele, tão conhecido e (supostamente) querido, foi se apresentar como homem do regime sim, o que, no seu entendimento, significaria estar acima da lei. “Nem vem que não tem” continuaram a cantar a polícia e a justiça, que condenou o mais popular artista do país alguns anos de prisão. Haveria do lado da polícia e da justiça outro pecado capital, a inveja? O filme não deixa ver, mas se vê que, da prisão, Simonal conseguiu se livrar, mas não da pecha de colaborador do regime, para cuja construção ele contribuiu com a pedra fundamental.
Ninguém riu quando, debochando do processo (ou não), Simonal admitiu que era homem do regime. O bobo da corte perdera a graça.
Se ele fazia ou não, com suas músicas alegres e dançantes, o povo cantar feliz e se esquecer do regime, é uma constatação que passa a ser irrelevante. O que importa é que o povo não quer mais cantar sob a batuta de um homem que se diz do regime.
Com auxílio luxuoso da grande imprensa que sempre o incensara, a esquerda atacou Simonal e a direita o desprezou. Os patrocinadores sumiram, os convites para show desapareceram. Simonal era de novo apedrejado, mas dessa vez nem seus inimigos riram da cena. Talvez novamente com ingenuidade, ele ainda tentou limpar sua barra obtendo um documento do governo dizendo que ele não fora colaborador da didatura, mas que Estado vai admitir que praticou atos ilícitos.
Apesar do esforço do filme, decifrar o mito Simonal para mim continua difícil. Não sei se ele foi um cara de sorte, por sua trajetória meteórica como artista, ou se foi um cara azarado, por não ter brilhado nos dias cínicos e pós-modernos que vivemos, em que políticos mudam de partido e músicos de cervejaria sem que nada de seu prestígio saia arranhado.
Como falei no início deste texto, a história do rei da pilantragem, do menestrel da alegria, Wilson Simonal, é uma história triste, mas precisava ser contada. Quer isso dizer que você vai gostar ou não do filme? Nem vem que não tem...

por Alvanisio Damasceno



Fátima Paes

Após assistirmos ao excelente filme, a pergunta "CULPADO OU INOCENTE?"
fazemos a nós mesmos, que vivemos aquela época e de alguma forma
ajudamos a "descartar" o Simonal da cena artística (eu dei todos os
discos, não quis mais saber dele e ajudei a criticá-lo). Esse filme
renova aquele "toque” necessário sobre a necessidade de ponderarmos,
sobre a importância de cuidar melhor dos nossos julgamentos.
Mas longe de ser um simples filme-denúncia /caretão/ é um filme que tem
(como Simona tinha) balanço, swing e ritmo, parte desses atributos se
deve a montagem e ao trabalho de computação gráfica que é bacanérrimo,
um diferencial no formato deste documentário.

por Fatima Paes Costa



Rolo

Quem tem medo de Wilson Simonal?

Ao assistir ao filme "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei", dirigido por Cláudio Manoel (sim, ele mesmo, o Seu Creysson do Casseta & Planeta!), Micael Langer e Calvito Leal”, pare para pensar: o que pode levar um país como nosso, mestiço, misturado, com uma das maiores populações negras do mundo, a tentar (e às vezes conseguir!) aniquilar as carreiras de seus artistas negros mais talentosos? Muitos foram vítimas de preconceito racial disfarçado de preconceito social (afinal, não dá no mesmo? Preconceito é preconceito. Ou um é menos ignóbil que o outro?): Elza Soares sofreu nas mãos de vários maestros e de alguns torcedores alvinegros e de parte da imprensa na época); o maestro Erlon Chaves foi censurado por suas apresentações no comandando da Banda Veneno - “Eu quero mocotó” -  e, antecipando o que a Blitz faria muito tempo depois, ao ficar dançando e rebolando com duas cantoras louras e boazudas. Diziam que Erlon repetiu muitas vezes nos interrogatórios que era bicha e o que os milicos consideravam violentíssimo atentado ao pudor nada mais era do que sua performance de palco; Elizeth Cardoso, Tim Maia, Bino (baixista da banda Cidade Negra), Glória Maria e tantos outros. Até mesmo Pelé, com toda a sua importância mundial ainda é vítima de “preconceito intelectual”. Nem mesmo Seu Jorge escapa: em pleno século XXI, centenas de pessoas juram, de pés juntos, que ajudaram "o negão a chegar lá". 

Não seria diferente com Wilson Simonal de Castro, um showman que fez um espetacular sucesso no Brasil dos anos 60 e incomodou com sua figura (um negro sorridente com 1,85m de ginga), seu som (preconceituosamente apelidado de “pilantragem” pelos críticos musicais da época), seu estilo de vida (carros importados e conversíveis na garagem, muita bebida e mulheres) e sua aclamação popular. Claro, um Brasil como o nosso, “ariano por natureza”, não poderia tolerar que um filho de empregada doméstica chegasse aonde chegou: comandar um show no Maracanãzinho com um coral de mais de 30 mil pessoas, ser o garoto-propaganda dos combustíveis Shell com um contrato milionário. E, principalmente, ser um ídolo popular. Os diretores do filme conseguiram, através de atualíssimas e coloridas vinhetas e animações, dar o caráter pop da época, resgatando fotos, jornais, capas de discos e imagens (Simonal canta The Shadow of Your Smile num dueto com Sarah Vaughan, completamente seduzida por ele), além de colherem emocionantes depoimentos de Chico Anysio, Pelé (outro negro tão famoso quanto o próprio Simona), os cartunistas Jaguar e Ziraldo (ambos eram diretores do Pasquim, jornal que ajudou a disseminar o boato de que Simonal era dedo-duro do Dops e que neste documentário (e cada um a seu modo) fazem um misto de mea-culpa e justificativas por terem tomado tais atitudes) e muitos outros. Curiosamente, Simonal foi derrubado pelo políticamente correto Pasquim e resgatado por um incorreto “casseta”.

Vítima de uma disfunção hepática crônica – degeneração das funções do fígado – decorrente do alcoolismo - Simonal morreu em 2000, aos 62 anos, sem ver sua importância artística reconhecida e tentando provar que fora vítima de uma cilada, ao ser acusado de ser informante da ditadura nos anos 70 e de ter mandado a polícia seqüestrar e torturar seu contador por desconfiar que este estivesse lhe roubando. O cantor viu seu sucesso definhar e viveu mais de duas décadas no ostracismo. Ao final do filme, enxugue as lágrimas e - se você for negro - pense sobre o país em que vivemos e se existe mesmo racismo ou – como dizem alguns "não-negros" – isso é apenas paranóia da sua cabeça.


por Rolo

http://twitter.com/roquenrolo


clique nas imagens acima
e saiba os filmes da programação